O brilho e o cansaço em God of War e Spider-Man

Este ano pude jogar dois exclusivos do PlayStation 4 que esperava bastante: God of War e Spider-Man. Também esperava escrever uma análise para cada um deles, mas abordo minha experiência com ambos neste texto único.

Não é justo compará-los ou colocá-los no mesmo barco, é verdade. Mas as emoções, percepções e ‘brisas’ que tive com os títulos se assimilam em diversos aspectos, positivos e negativos.

Além disso, o último semestre me deixou sem tempo para abastecer o blog, obrigando esta inédita tarefa. E isso não é um pretexto, mas sim um fator que interferiu na experiência com God of War e Spider-Man. Então vamos começar pela ‘bad trip’.

O TEMPO ROMPE
Um dos recursos que mais me prendem em jogos ‘finitos’ (aqueles ‘de zerar’) são as quantidades de itens colecionáveis, desafios secundários, segredos a descobrir e todos os caminhos que percorremos para ter essa completude.

Mas nada disso vale a pena se for apenas por status, o que tem de monte em God of War e Spider-Man. Muito do que esses títulos oferece fora da narrativa principal não trazem uma grande recompensa ao esforço requerido, com foco maior em troféus que não servem de nada ou novos itens que não influenciam tanto a jogabilidade.

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God of War foi desenvolvido pela SIE Santa Monica e publicado pela Sony Interactive Entertainment em 20 de abril de 2018

Mesmo assim, explorei os objetivos secundários ao máximo possível com Kratos e Parker, alongando as jogatinas a um nível extremamente cansativo e, por fim, frustrante. Notei que, na verdade, o tempo rompeu comigo.

Jogar videogame não é mais como antigamente, pois as conquistas ‘extras’ geravam maior interação com a comunidade. Me sinto desconectado dos novos valores dela. Nesta ‘vibe’, muita coisa perde sentido. O que era pra ser legal, vira tédio.

Afinal, um desabafo: conciliar trabalho, cuidados domiciliares, contas a pagar, vida social, saúde, família e outras coisas gera rompimentos. Não tenho mais tempo para comparar quem tem mais troféu; quem fez mais recordes; tudo que os produtores aplicaram num jogo. E ainda tenho muitos títulos para experimentar. Muitos textos para escrever.

REENCONTRO
Sou do time de que um game não pode se valer do discurso narrativo para ser bom. Às vezes sou rígido com isso. Mas no caso de Spider-Man e, principalmente, God of War, preciso enaltecer o enredo. Desta vez, somente ele, pois foi o gás para reencontrar a graça nos demais elementos que constituem um jogo — todos impecáveis nestes títulos.

Em God of War, Kratos está ‘diferente’. Não sei se maduro é a definição mais precisa. Ele busca redenção. Está cuidando de um filho e inserido em outro universo. Procura se distanciar do passado, rodeado de mistérios que, na soma, representa diversas angústias da vida adulta. Elas dialogaram comigo e criaram sentido para seguir em frente.

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Spider-Man foi desenvolvido pela Insomniac Games e publicado pela Sony Interactive Entertainment em 07 de setembro de 2018

Já em Spider-Man, o enredo original traz Parker herói por quase uma década. Embora ele esteja prestigiado no início da trama ao capturar um dos maiores líderes do crime na cidade, seus problemas se tornam mais constantes ao decorrer dos novos eventos, implicando principalmente em sua vida pessoal.

Essas situações mimetizam, mesmo que simbolicamente, muitos problemas da vida real. É o velho dilema da arte imitando a vida ou vice-versa. E essa mistura de emoções vão se traduzindo em combustível para continuarmos atirando teias aqui e machados acolá, sempre atrás de soluções que nem sempre solucionam as coisas.

E nesse reencontro de significados, nasce uma ansiedade que fomenta breves pausas para curtições secundárias. Um ensinamento de que é na busca pelo desfecho que encontramos a melhor maneira de aproveitar o que uma experiência tem a oferecer. E que, se acelerarmos as ocorrências, surge uma necessidade de parar e aproveitar coisas ‘menores’ dispostas em volta.

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Murillo Magaroti

Jornalista e escritor