Jogos de tiro e os gatilhos de violência

Faz quase duas semanas do massacre no município de Suzano, em São Paulo, quando dois garotos invadiram a escola Raul Brasil e assassinaram dez pessoas a sangue frio, com armas brancas e de fogo. Falta o porquê para arrematar o lead desta notícia, mas isto pouco se sabe.

Fato é que casos como este já aconteceram antes, inclusive no Brasil, e infelizmente podem se repetir se não houver um trabalho de compreensão sobre a complexidade por trás da violência urbana.

Isso, certamente, não se encontra na declaração de Hamilton Mourão, poucas horas após o ocorrido. Segundo o vice-presidente da República, a flexibilização da posse e porte de armas não tem a ver com o evento.

Ele considera, na sequência, que jogos de videogame influenciam o que aconteceu. Isso porque ele ficou sabendo que os assassinos jogavam games de tiro, especificamente Free Fire, battle royale desenvolvido pela 111dots Studio e publicado pela Garena.

“Quando eu era criança e adolescente, jogava bola, soltava pipa, jogava bola de gude, hoje não vemos mais essas coisas. É isso que temos que estar preocupados”, compara Mourão, em matéria veiculada no Terra.

De fato, nos massacres anteriores em escolas brasileiras, a flexibilização da posse e porte de armas não era um assunto em voga no Brasil. E 50 atrás, quando o vice era criança ou adolescente, não haviam casos assim registrados.

Mas é um fato superficial, pois além destes dois fatores, é necessário considerar diversos outros que engatilham o ato, do planejamento à execução. E eu não quero ‘passar pano pra videogame’, como escreveu meu amigo jornalista Murillo Magarotti.

Os games têm sim sua parcela de influência, assim como flexibilizar o porte e posse de armas tem. Isso porque o acesso estaria ainda mais fácil, sem contar que nos EUA, onde esse time de regulamentação é mais brando, há registros em maior escala de massacres em escolas.

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Print do jogo Free Fire

Por isso, é preciso expandir o enfoque e discutir a estrutura psicossocial dos assassinos, bem como a condição de suas famílias, o que viveram, como lidaram com frustrações e expectativas, entre outros agentes que escoam em um funil amplo até singularizar o perfil de cada um dos atiradores.

Isso tudo constrói o percurso do massacre, além de ferramentas que dão suporte a isto. E não estou falando das armas, mas sim da comunicação, uma vez que o crime foi articulado em um chan, fóruns online que não demandam cadastros, utilizados para compartilhamento de imagens e textos.

Além do anonimato, alguns destes sites ficam alocados na darkweb (páginas escondidas; fora da varredura de motores de busca), proporcionando segurança e conforto para que os usuários pratiquem crimes dos mais variados tipos.

A Ponte Jornalismo fez uma reportagem mostrando que o massacre foi comemorado no Dogolachan, fórum frequentado pelos assassinos. Nesta página, assim como em outras, é comum a disseminação e culto do ódio, principalmente de caráter misógino, machista, racista e homofóbico.

A matéria traz uma manifestação do moderador do fórum que, além de projetar novos massacres, diz vagamente que é culpa de um sistema que, fisicamente e mentalmente, pune as pessoas somente por pensarem ou adquirirem informações que desejam.

Em maio de 2018, a VICE publicou uma matéria mostrando que o Homini Sanctus, seita cibernética de ódio contra minorias, influenciou o assassino responsável pelo massacre de Realengo, que ocorreu em 2011 no Rio de Janeiro.

Esta seita gerou, ainda segundo a matéria, descendentes no mundo virtual, como o próprio fórum Dogolachan. Lá, os usuários culpam as mulheres por fracassos pessoais e até pela virgindade. Eles se chamam de incels (celibatários involuntários), vítimas da virgindade indesejada e da rejeição do sexo oposto (em outras palavras, machistas e misóginos).

A pauta alerta que casos como o de Realengo poderiam se repetir. Infelizmente, se repetiu. O próprio moderador do Dologolachan aposta que aconteceram mais. Não duvido.

Enquanto apenas videogames ou posse/porte de armas forem examinados como determinantes para esses casos, não haverá uma evolução em termos de combate, pois é fruto de uma violência urbana mal compreendida e combatida.

Em um Governo que busca soluções simples para problemas complexos, só posso lamentar pelas denúncias que caem no esquecimento até o próximo desastre, pois quando devíamos estar a par de medidas com um escopo profundamente elaborado sobre o tema, nos deparamos tristemente com criação de comissão para expurgar “ideologia de gênero” das questões do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

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