Red Dead Redemption 2: separando tédio e imersão

Red Dead Redemption 2 foi lançado em 26 de outubro de 2018, mas só tive a oportunidade de jogá-lo em março de 2019. Como de costume, peguei o disco emprestado e prometi devolvê-lo em dois meses. Mas o período que o game ficou no meu PlayStation 4 foi o dobro, assim como seu dono (meu irmão) havia alertado. “Só começa se tiver muito tempo”, disse.

Embora seja positivo à primeira vista, o tempo de jogo estendido acaba afastando muitos jogadores do título da Rockstar. Isso porque Red Dead Redemption 2 exige paciência para se tornar divertido, o que nem sempre é realidade quando nos dispomos em frente à tela com o controle na mão.

No meu caso, que dificilmente tenho longas horas vagas para ficar jogando, cheguei a deixar o game de lado por quase um mês. Sim, tem uma hora que se torna realmente um saco cruzar grandes distâncias no mapa, principalmente quando isso é feito apenas para trocar diálogos.

Quando voltei ao progresso, já com intuito único de dar fim à campanha, me reanimei com tarefas secundárias e despertei novos interesses que me prenderam por mais um mês no jogo. E é justamente essa linha tênue entre imersão e tédio, tão presente em Red Dead Redemption 2, que acho justo abordar.

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Arte da gangue Van der Linde, grupo central da história de Red Dead Redemption 2

CONTEXTO DE RED DEAD REDEMPTION 2

Para compreendermos que Red Dead Redemption 2 oscila entre momentos que nos prendem e nos afastam dele, é preciso antes considerar todo o ecossistema do game. Para quem não tem ideia, trata-se de um jogo de ação e aventura ambientado no velho-oeste, igual aqueles filmes western do Sergio Leone.

A história ocorre alguns anos antes dos acontecimentos de Red Dead Redemption, e retrata o declínio da gangue Van der Linde com a chegada da lei, em meados de 1899. A filosofia de vida do grupo, violenta e criminosa, é asfixiada pelo poder governamental, que atua com mais força após a Reconstrução dos Estados Unidos.

Essa pressão faz com que toda a campanha se torne uma interminável fuga, no qual os membros da gangue precisam constantemente mudar do local onde estão clandestinamente acampados. E isso não se trata apenas de um roteiro de bandido contra mocinho, pois além dos “homens da lei”, há também outras gangues, relacionamentos interpessoais e organizações comerciais envolvidas na trama.

Com isso, o enredo enriquece em complexidade e verossimilhança, recheado por ações baseadas em disputa de poder, interesse pessoal, lealdade, causa e cultura. É coroado, sobretudo, pelo exagero e humor da Rockstar. Quem é fã de GTA assimila essa característica, que embute autenticidade e aproxima jogo e jogador.

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Gangue Van der Linde é encurralada e forçada a fugir ao longo de todo o jogo

APRESENTAÇÃO DO TÉDIO

Logo na introdução, após uma longa cutscene, assumimos o controle do protagonista Arthur Morgan já no nomadismo da gangue Van der Linde. Os personagens estão presos numa nevasca, procurando abrigo. Vamos até um ponto, conversamos, vamos a outro ponto, conversamos mais, e assim por diante. Uma apresentação com mais de 1h sob este ritmo.

Esse é o cartão de visita de Red Dead Redemption 2, que exibe de cara o que veremos ao longo de muitas etapas da campanha. A movimentação do personagem é bastante lenta quando ele está no acampamento e em outras localizações específicas, potencializando a sensação de tédio.

Depois de mais de 1h tolerando essa dinâmica, o desejo em ativar missões o quanto antes as e sair desbravando o velho-oeste se torna justo. A extensão do mapa, que praticamente equivale ao triplo do de GTA V, atrasa mais ainda a tomada de ação, já que o percurso entre os pontos de objetivo costuma ser grande. Se seu cavalo acabar morrendo durante isso, pior ainda, pois não é fácil encontrar e capturar outro.

O jogo oferece a opção de viagem rápida para driblar esse problema, que pode ser ativada em pontos fixos do mapa. Mas o benefício cai por terra devido ao longo tempo de carregamento (loading), que toda a vez é necessário para processar a mudança do mapa.

Em algumas missões, a Rockstar otimiza os longos percursos com os diálogos entre os personagens, que geralmente duram todo o trajeto. Como o jogo não está disponível com dublagem em português, também não ajuda quem não é fluente no idioma — já que é precisa parar de andar pelo mapa para dar atenção à legenda, aumentando a duração de tudo. Ou então, seguir sem ler os diálogos e, consequentemente, comprometer a imersão.

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Equivalente a quase três do GTA V, o mapa de Red Dead Redemption 2 é composto por paisagens variadas, com montanhas, florestas, pântanos, lagos e muito mais.

UM MUNDO SEM LEIS PARA EXPLORAR

Red Dead Redemtpion 2 é um sandbox, estilo de jogo que prioriza a exploração num mundo aberto, com poucas limitações, em vez da progressão metódica. É importante saber qual sua preferência de experiência antes de forçar uma adaptação e se frustrar, pois é natural que o sandbox exija mais tempo e disposição do jogador. Afinal, só assim que a exploração acontece.

Mas isso não significa que, por ser sandbox, o jogo é consequentemente entediante. Objetivos repetitivos, bugs, desequilíbrio entre desafio e recompensa; risco e punição, entre outros outros fatores fazem com que um sandbox seja ruim. Não é o caso de Red Dead Redemption 2.

A enorme variedade de missões — principais e secundárias —, de colecionáveis (cartas de cigarro, armas, itens de equipamento, plantas, roupas, cortes de barba e cabelo, e muito mais) e de tarefas (caças, pesca, eventos especiais, jogos de azar, entre vários outros) transforma o título em uma obra-prima do sandbox.

Quando o mapa se abre para nós, depois de toda a arrastada introdução, há um choque de possibilidades, injetando bastante empolgação. Neste momento, notamos que dificilmente enjoaremos do game. Cabe citar, ainda, os easter eggs dos desenvolvedores e mistérios indicados por personagens especiais do game (entalhes em rochas, fósseis de animais extintos, e outras coisas) escondidos no grande mapa.

Preferimos o longo percurso entre os objetivos para ficar explorando, mesmo que por mais de 2h sem avançar na missão, pois estávamos ocupados demais na invasão de uma casa isolada para adquirir um item raro. Ou então se embrenhando entre montanhas e florestas para matar um animal lendário; encontrar um tesouro, e porque não até numa rodada de pôquer.

Sem leis, o velho-oeste nos dá muito poder. Basta um cavalo vigoroso (o que também pode ser trabalhado no jogo) e uma boa pistola na cintura. Mas nossos atos trazem consequências e punições ao longo da experiência, inclusive para o desfecho do enredo — que pode ser repugnante ou cordial, mas sempre trágico e triste.

Com essa virtude, a exploração é até mais atraente do que a história principal. O ideal é dosar a experiência entre todas as possibilidades oferecidas. Mas não tem problema em se interessar mais por um tipo de objetivo e mergulhar só nele. Red Dead Redemption 2 tem um leque para agradar gostos de exploração variáveis, sempre violentos.

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Como um bom sandbox, Red Dead Redemption 2 oferece muitos extras, como caça de animais lendários — todas com recompensas que melhoram a experiência e performance do jogo.

ENTRE PERCALÇOS, O JOGO DO ANO

Quando terminei Red Dead Redemption 2, após os quatros meses, tinha aproximadamente 80% de progresso (desconsiderando expansões e modo online) e quase 100h jogadas. Esse montante poderia ter sido o dobro, mas optei em intercalar a jogatina com outros títulos, pois nem sempre temos disposição para imergir da forma como um sandbox demanda.

Durante o game, nota-se que é impossível acessar a cidade de Blackwater, onde a gangue Van der Linde é caçada viva ou morta. Ao pisar lá, muitos agentes do governo aparecem, com respawn infinito. Mas ao final do game, é possível atravessar a região e explorar os locais que compõem o mapa do título anterior. Infelizmente, não tem quase nada para se fazer por lá, apenas sentir “nostalgia visual”. Uma oportunidade desperdiçada.

Desconsiderando detalhes como esse, e tolerando o excessivo tempo de loading, o ritmo arrastado e a facilidade em adquirir dinheiro para se empoderar rapidamente, é um dos melhores títulos da atual geração. Se por um lado a dinâmica nos obriga exaustivamente a controlar a inquietação, em contrapartida nos premia com uma dose alta de diversão durante trocas de tiros, assaltos, sequestros, entre outros.

A mecânica de física e impacto, o visual gráfico, a trilha sonora e os efeitos sonoros, somados à essência do sandbox, entregam uma experiência emocionante e gratificante de gameplay. Todo esse primor técnico valoriza um estilo de jogo cada vez mais raro no mercado. Mas existe público para isso, que inclusive escolheu, em muitas pesquisas, Red Dead Redemption 2 como favorito ao Game of The Year (GOTY) 2018 — prêmio que acabou ficando com God of War, segundo a Game Awards.

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